A mim, de mim.

Oi, gente! Entrando na onda da galera blogueira e aproveitando para falar comigo mesma por meio da escrita, escrevo aqui uma carta para mim. A proposta, lançada pelo Hypeness, sugere que a gente escreva uma carta para si mesmo dez anos atrás, de maneira a cavar fundo na memória os sonhos, as expectativas, as opiniões e até os medos que a gente tinha na década passada. Achei muito legal essa iniciativa! Já faz um tempo que eu estou querendo escrever para mim, mas precisava desse empurrãozinho.

Segue a mim, de mim:

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Florianópolis, 06 de março de 2014.

Nara (a dez anos atrás, essa era a única variação do seu nome):

Que lindinha você!

Toda magrinha, do cabelo e corpo virgens, do sorriso metálico, dos olhos verdes ainda bons, enxergando quase tudo.

Nas unhas, a renda e só.

Sem maquiagem, sem adornos, sem a mínima ideia do que ser quando crescer.

Ah, você não vai crescer!

Pelo menos não em altura.

Mas a sua alma vai expandir de um jeito, menina…

E o seu círculo de amigos também (sem falar nos seios!).

Sua visão vai ser um incômodo. Quatro graus e meio de miopia e astigmatismo em cada olho, pobre do anjo.

Mas a maneira como você enxergará a vida vai compensar esse probleminha genético, acredite em mim.

Menina, como você é tola! 

Você acredita nas pessoas, inclusive no seu pai. Elas e ele irão te decepcionar.

Menina, como você é corajosa!

Você foi criada para agradar, para corresponder, para renunciar, anular a si mesma… E você vai decepcionar.

Mas fique tranquila, a vida tem disso, e todos irão sobreviver.

Seus diários, cadê?

Eu sinto falta deles agora.

Sinto falta das suas narrativas, que você escreve durante as aulas de cálculo, nas últimas páginas do caderno de dez matérias, com canetas de gel e cheirinho bom.

Hoje, elas me fariam rir com mais facilidade.

Já falei que você não vai rir mais tanto assim?

A vida também tem disso.

Mas, mais uma vez, fique tranquila: você, ainda que não tão frequentemente, por causa dos compromissos de adulta, vai dar gargalhadas gostosas numa mesa de bar com pessoas maravilhosas que você nem imagina que vai conhecer.

Sim, você irá a bares. E irá beber. Vai até dar PT algumas vezes, jurando ser a última.

Você vai experimentar coisas que fariam você estremecer de horror ao imaginar, Narinha.

E você vai gostar. E você vai repetir. Algumas até se tornarão parte da sua rotina daqui a dez anos.

Você vai mudar de escola, pintar o cabelo, cortar a franja (e desta eu não sinto a mínima falta), colocar um piercing, beijar sem estar apaixonada, receber um novo apelido (Indi)…

E você vai mudar de casa algumas vezes. Em uma delas você vai ter quatro cachorros. Um de cada vez. Com eles você vai aprender a amar por amar.

Você vai descobrir o sexo de uma maneira meio atrapalhada, e vai rolar uma frustraçãozinha. Mas você vai aprender que uma única noite é pouco tempo para descobrir o sexo. Dez anos ainda não são suficientes.

Você vai passar em dois vestibulares, sua danada! E vai escolher a faculdade que, hoje, eu e você sabemos, escolheu você.

Você vai namorar três caras. De um deles você vai ficar noiva e marcar a data do casamento. Mas o seu anjo da guarda, que em vez de uma auréola tem um ponto de interrogação na cabeça, vai te fazer desistir temporariamente desse sonho e vai te levar para a Ilha da Magia, onde você irá realizar outros sonhos.

Lá, você vai aprender que não existe uma única verdade; que as pessoas podem ser legais ou não, e que isso nada tem a ver com o que elas vestem; que tudo, absolutamente tudo, é relativo; que as pessoas têm preguiça, e que preguiça dá dinheiro; que todo mundo quer se sentir especial, e que isso também dá dinheiro; que equilíbrio é a palavra-chave para atravessar os dias; que seja o que for, vai passar; que a vida não cabe em uma teoria; que você atrai o que exala; que a força do pensamento existe e é realmente forte; que se você usar a razão sempre, você vai parecer chata…

Na tal ilha você vai dançar como se ninguém estivesse te olhando. E todo o mundo vai estar.

Você vai conhecer lugares e pessoas diferentes, e vai aprender que nenhum deles foi por acaso.

Nesses dez anos, você vai se despedir algumas vezes de quem você ama. Vai ter vontade de implorar para que fiquem ou te deixem ficar. Mas logo você vai entender que as partidas também não são por acaso.

Você vai se apaixonar. E vai sofrer como um cão sem dono. Vai dar vexame por causa da paixão. Vai falar e fazer o que não deveria, para quem não merecia.

Oh, céus, você vai errar tanto!

As pessoas vão julgar você, e você vai sofrer de novo.

Mas em um determinado momento, no finzinho dessa década de mais erros que acertos, você vai olhar para si e se pedir perdão por tudo o que fez consigo. E você vai se perdoar.

Você vai até mesmo conseguir rir das tolices que levaram você, de joelhos, até a frente do espelho.

Às pessoas que você magoou, você vai pedir perdão. E as que te magoaram você vai perdoar.

Fico feliz que não tenhamos problemas com isso de perdoar, que tenhamos um coração bom, Nara, eu e você.

Você vai descobrir que quem manda é mesmo o coração, mais até que o sangue. E você vai conseguir, depois de um tempo, preferir que seja mesmo assim.

Você não vai abandonar as calcinhas de bichinho e algodão. Nem o senso de justiça.

Você vai descobrir a literatura, e isso vai engordar a sua alma e fazer você ver o mundo de uma maneira muito mais bela.

As palavras sempre foram e sempre serão suas amigas, ainda que você fique um pouco desapontada ao descobrir que a linguagem nem sempre dá conta do que você sente.

Você vai fazer, diariamente, dezenas de pessoas prestarem atenção no que você diz do alto dos seus 1,54 metro. E isso vai fazer você se sentir grande.

Você vai lavar a alma no mar e lá, dentro mar, você vai sentir a presença de Deus de uma maneira como nunca sentiu enquanto ajoelhava no banco de uma igreja que dizia que para ser feliz você tinha que doer.

Você vai fazer uma tatuagem!

Não me olhe com essa cara de preconceito, acusando pecado ou afronta aos seus princípios.

Ela vai ficar linda em você. Um pedacinho da sua alma vai se tornar visível através dela.

Você vai tentar ler Nietzsche algumas vezes, mas vai se convencer de que é mais feliz ignorando-o. Você também não vai querer saber como se dá o abate dos animais de que você come a carne. Em vez disso, vai preferir suspirar pelo cheirinho de churrasco que o vizinho faz enquanto você almoça um miojo ou um omelete no domingo, longe da família.

Nara, você vai pensar muito e sobre tudo. A inquietação que te move vai te fazer falar uns palavrões às vezes (sim, palavrões, dos mais feios que você pode imaginar), chorar sentada de borboletinha embaixo do chuveiro em outras, e ter vontade de largar tudo e ir morar no mato em mais algumas. 

Mas a sua fé em Deus, na vida e em você mesma, na sua história e nos seus valores, vai fazer você feliz. E é este o segredo, que eu só conto para você: a fé.

Os anos são uma ventania, menina. Vêm intensa e rapidamente, levam o que e quem têm que levar; movimentam e refrescam o que é firme e quente o suficiente para permanecer em você. E a vida, ela é bonita, continua e dá voltas, toda “emperequetada”, com make, bijus, unhas coloridas e cabelos também. Viva!

Com todo o amor por mim,

Indianara.

Um inteiro em duas metades, por favor.

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Eu quero um amor.

Decidi ontem.

Mas eu falo daquele amor. Sabe aquele? Em que a gente se doa sem nem sentir dor. 

Dá para ser já, Deus?

Não por nada, mas é que eu, ontem, pela primeira vez no meu quase um quarto de século de vida, desejei amar. Com todos os gramas da minha alma (e ela é obesa), eu quis um amor.

Foi assim: saí sozinha. Não ligo e, às vezes, até prefiro.

Filha única de mãe moderna e pai nem aí, aprendi, desde cedo, a ser sozinha.

Oh, não tenha dó da criança, por favor!

Era bem legal! O meu melhor amigo era o espelho, para quem eu dançava sobre uma cadeira (que eu carregava SOZINHA da cozinha para a sala). Havia também as árvores, que ora eram meus namorados imaginários, ora eram alguém com quem eu discutia freneticamente. Às vezes, eram as duas coisas coisas num galho só. É que eu gostava de discutir a relação.

Tive cachorros e peixes também, para quem eu contava todos os meus segredos.

E por falar em segredos, os diários eram quem me liam pacientemente, enquanto eu detalhava cada acontecimento corriqueiro.

Espelho, árvores, cachorros, peixes e diários foram as minhas companhias na maior parte do tempo de infância.

Na adolescência, a mesma coisa. Mais cachorros, peixes e diários. Só que sem árvores. E com o espelho eu havia me desentendido lá pelos 12 anos. Ficamos sem nos falar por um tempo.

Agora, adulta, as coisas mudaram. Não tenho mais cachorros, nem peixes; diário virou blog, o que é bem diferente, apesar de não parecer (eu tento, juro!); as árvores tagarelas ficaram na infância mesmo; e o espelho… bem, ainda estamos meio estremecidos.

Mas eu continuo sozinha: moro sozinha, onde durmo e acordo sozinha (quase sempre); pego ônibus, pago conta, dou aula, leio, limpo, cozinho, conserto, caminho, compro, carrego, guardo… Tudo sozinha.

Eu sou cheia de amigos de verdade e de carne e osso, graças a Deus. E também sei que posso contar com a minha família (pelo menos com parte dela). Acontece que eu aprendi a contar primeiro comigo. Barata? Mato sozinha. Claro, dou uns gritinhos, uma rezadinha, mas acabo acertando o chinelo ou, se não estiver por perto, o spray com veneno ou, se também não tiver em mãos, o desodorante aerosol (funciona ao menos para deixá-la tonta, #ficaadica).

E aí, ontem, eu saí sozinha. Era domingo, um calor da porra infernal, a TV aberta, os amigos de verdade e de carne e osso viajando, a geladeira vazia, a carteira incrivelmente cheia, decidi me levar para passear.

Fui ao shopping, aqui pertinho, a pé mesmo. Já havia conferido a programação do cinema e, como queria assistir a um filme de estreia, fui mais cedo e direto para a bilheteria. Comprados o ingresso e o combo pipoca+coca-cola+chocolate, eu tinha duas horas inteirinhas para explorar o shopping, olhando vitrines (sem comprar nadinha, afinal a carteira não estava assim tão incrivelmente cheia), cumprimentando uns conhecidos, olhando mais algumas vitrines… Deu fome. E como eu queria me ocupar até a hora do filme, não esperaria pelo combo. Rodei três vezes a praça de alimentação até optar pelo Subway, tão familiar.

– Aveia e mel, frango defumado com cream cheese e queijo cheddar.

– A senhora vai querer um inteiro ou metade?

Alguma coisa me incomodou muito na fala daquele infeliz. Não sei se o senhora, a audácia de imaginar que eu pudesse comer um sanduíche inteiro, de 30 centímetros, ou aquela coisa de “metade”.

Eu quase nunca gosto da ideia de metade.

Mas era um Subway. Metade de um Subway, aliás.

Respondi simpática, porque eu sou, selecionei os complementos, pedi um chá gelado para ajudar a descer aquela metade, paguei, sentei, comi e bebi, bem devagar.

Olhei as horas. Mais uma hora ainda até o filme começar.

Eu já havia olhado todas as vitrines possíveis.

Resolvi chupar uma paleta. Sabe aquela? É tipo um picolé, só que maior. É um picolezão mexicano. Escolhi o sabor brigadeiro e, mais animada pelo contato com a glicose, fui brincar de subir e descer as escadas rolantes mais um pouco.

Foi aí que deu “PT”.

Vi um casal de shopping. Sabe aqueles? Eles são tão fofos! Andam abraçadinhos, dão beijinhos de esquimó na escada rolante, riem de alguma combinação tosca em alguma vitrine, dão beijinhos de novo… E dividem uma paleta. Faceiros. Sem nem se importar em abrir mão de metade do picolezão!

Fiquei tola, olhando. Voltei a mim quando a minha paleta começou a derreter e sujou o meu vestido azul-BIC novinho. Taquepariu! Como um bebê dinossauro recém-nascido, acabei com a maldita paleta em três segundos e corri para o banheiro. Limpei como deu. Nem foi tão grave assim, só um respingo na parte superior, próxima do peito. Quando virei para pôr o papel-toalha no lixo, me vi no espelho. O espelho. Meu antigo caso de amor e ódio. Estava ali, me mostrando para mim, linda, de vestido azul-BIC novinho, com a mão direita e pequena no coração. Sozinha.

Senti uma satisfação repentina, mas logo em seguida um incômodo semelhante ao que senti quando o infeliz do Subway me chamou de senhora, supôs que eu desse conta de um sanduba de 30 ou falou sobre metade.

Pelo espelho, notei as horas no relógio.

Ufa! Hora do filme.

Subi para o terceiro andar, direto para o cinema, sem olhar para os lados para não correr o risco de tornar a ver o casal de shopping.

Sorri simpática para o cara do ingresso, porque eu sou, e adentrei a sala 2, já com o combo nas mãos.

Escuro, som alto, minha fileira de poltronas vazia. Perfeito!

Sentei, ajeitei o combo, tirei a sandália, desliguei o celular e me pus a prestar atenção no filme.

Lindo! Emocionante do começo ao fim.

Duas horas mais tarde, ao fim da sessão, com os olhos avermelhados e inchados pela emoção, enquanto me arrumava para deixar o cinema, eu me dei conta de que ninguém mais que saía dali estava assim, com cara de choro.

E então eu entendi que eu não havia me emocionado somente pelo filme ser tocante, mas porque me dei conta de que, pela primeira vez na vida, eu queria alguém que dividisse uma paleta comigo. Um alguém tão legal, que eu nem me importaria com a ideia de metades. Um alguém que me convencesse de que pode ser divertido, leve, não ser sozinha; que é possível compartilhar, sem sofrimento, não só a paleta, mas euzinha, em todo o meu 1,54 metro e a minha independência.

Com o passo apertado e o coração também, caminhei até a rua, fiz sinal para o táxi, entrei e segui para casa.

Quando abri a porta e acendi a luz, tcharam!, a maior barata de todas as baratas que eu já havia matado. Sem gritar e sem rezar desta vez, eu a liquidei com uma chinelada certeira. Em seguida, me preparei e dormi. Sozinha.

Hoje, de manhã, acordei sabendo: eu quero um amor. Aquele amor, em que a gente se doa e as metades não doem.

Indianara Machado

Casamento de viúva

Oi, gente!

Em princípio, peço desculpas a vocês pela demora em postar.

Estive na minha terrinha, na casa da vó, onde fiquei por 10 dias, e a internet por lá é meio difícil.

Assim, aproveitei para fazer uns rabiscos em uma agenda antiga que a vó me emprestou e, mais tarde, já em casa, nas Floripas, como a vó com seu crochê, teci o texto que segue.

Espero que gostem.

Semana que vem tem mais. 🙂

Um beijo obeso!

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Sentada no sofá duro e escuro daquela casa tão aconchegante, cheia de “fru-frus” de vó, a minha fazia com crochê uma blusa para alguma de nós – eu e minha mãe.

A minha avó é daquelas sábias, cheias de vivência, que sempre têm um conselho válido para dar aos mais novos. Moderna, inteligente, cozinheira de mão cheia, e cheia de fé, a minha vozinha – como eu a chamo – é uma vó paradoxal e de dar inveja nas netas de outras avós.

Entre um ponto e outro, naquela tarde quente de janeiro, em que tudo era quente (chão, paredes, móveis, vento que o ventilador fazia…), falávamos uma com a outra sobre sentimentos e grandes acontecimentos.

Ao puxar mais um pouco de linha do rolo, a minha vozinha afirmou com a maior certeza do mundo: “Nada como um dia após o outro”.

Mentalmente, repeti aquela frase algumas vezes enquanto olhava de modo fixo para o nada. Até que ela emendou, ainda certa sobre o que falava: “Para tudo nesta vida”.

Eu já havia ouvido e lido essa entre outras frases que querem dizer quase a mesma coisa: “As melancias se ajeitam conforme segue o caminhão”, “O mundo gira e coloca tudo no lugar”, “O tempo é remédio”, “Devagar e sempre”, e até alguns versículos bíblicos: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã (Salmos 30)”  e “Para tudo neste mundo tem seu tempo (Eclesiastes 3)”.

Mas, por algum motivo, esse dito, dito pela minha avó, ficou sombreando meus pensamentos que ferviam no que restava daquele dia que fazia 40°C.

“Nada como um dia após o outro. Para tudo nesta vida”.

Segui jogada, suportando aquele calor insuportável, procurando coisas frescas para encostar e beber. O que ajudava era o banho gelado mesmo, mas não dava para ficar o tempo todo debaixo da água fria (principalmente na casa da vó).

Desgastada pelo calor, eu dormi. Metade do corpo no colchão, e o chão amparando a outra metade.

Quando acordei, no dia após aquele, chuva. Grossa, fria e deliciosa. Tão necessária!

Era outro dia, outro tempo, outro clima, outro humor, outro cheiro, outra cor.

E aí, antes mesmo do café, enquanto eu ainda estava deitada e ouvia o barulho dos pingos em atrito com o asfalto da rua da casa da minha avó, aquela frase dita por ela, a minha vozinha, no dia anterior, fez sentido absoluto. Como a gota mais pesada daquela chuva, a essência daquelas palavras bateram forte na minha alma e eu compreendi que, realmente, não há “nada como um dia após o outro”.

Entendi, finalmente, que vida da gente é assim: num dia, quente, ardente, a ponto de explodir. Calor, dificuldade pra respirar, impaciência, anseio pela mudança de cenário e pela reviravolta.

No outro dia, ou no outro, ou no outro ainda, vem a chuva. Cheia, forte, fresca. Às vezes, rápida; em outras, demorada. Mas chuva que molha o seco, que ameniza, que recompensa, que tranquiliza, que transborda.

A vó sabe o que diz.

E, agora, eu sei interpretar o que ela diz quando diz que vai chover. Sei que depois de dias secos, sofridos, sufocados, quase impossíveis de atravessar, chove.

E depois do dia de chuva, ou no outro, ou no outro ainda, vem o sol novamente. Quente, grande, amarelo. Que seca o molhado, que motiva, que clareia, que torna lindo o fim da tarde.

Que delícia de tempo! Que delícia de vó! Que delícia de vida, que muda sempre, sempre, um dia após o outro!

 

Indianara Machado

 

 

 

Eu comigo


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Tem coisa mais gostosa que estar cercado de gente?

Numa mesa de bar, com amigos e uma brejinha, é uma delícia tagarelar sobre banalidades (a cor do esmalte, o gato que não para de olhar, o pudim que deu certo, o novo aplicativo, a loja que está liquidando tudo…) ou assuntos mais sérios (a educação, a saúde, o transporte, as crenças, as histórias de amor, a saudade de casa…).

No sofá da casa da vó, dividindo o espaço com toda a família, a gente se diverte palpitando no problema conjugal da tia e do tio, opinando sobre a crise financeira que assola os negócios do outro tio, debatendo sobre os remédios que podem curar o reumatismo do vô… Tragédias da vida em família são comédias nas tardes de domingo.

No trabalho, é mais que uma satisfação interagir com o pessoal do setor, sondar as próximas promoções, especular as possíveis demissões, comentar sobre os grandes feitos da cafeteira super moderna que acabaram de pôr à disposição dos funcionários no refeitório. 

Na faculdade, então, o legal é cochichar e rir baixinho durante as aulas. E quando o professor faz aquela cara de “agora chega!”, a graça migra para a troca de bilhetinhos de frases curtas e desenhos bizarros.

Na cama, com quem se ama (ou não), é uma delícia ficar de papo depois de toda a troca de sentidos.

É mesmo muito gostoso estar em comunhão.

Entretanto, em resposta à pergunta do topo, existe, sim, coisa mais gostosa do que estar rodeado de pessoas.

E engana-se quem pensa que essa coisa é estar sozinho!

Gostoso mesmo é estar consigo.

Encarar-se, lidar-se, reconhecer-se.

É difícil. Mas é gostoso.

É estando consigo que a gente descobre quem é, o que quer, do que gosta, para quê vive.

É estando consigo que a gente desvenda os mistérios do ser.

É estando consigo que a gente entende o que acontece na mesa de bar, no sofá da vó, no refeitório do trabalho, nos bilhetes clandestinos, na cama (com ou sem amor).

É de dentro para fora.

Corajosos são os que ficam consigo, afinal é tão mais fácil se esconder! Pode ser atrás das horas extras, do namoro tranquilo e sem perspectiva, do sorrisão, do “tudo bem, e com você?”, do abrir de páginas do romance açucarado na cabeceira…

É tão mais fácil correr para o boteco, para a sala de estar, para o cerão, para a aula de reforço, para a rede social… do que para dentro de si.

A gente é a única companhia constante da gente mesmo.

A gente acorda consigo, caminha consigo, trabalha consigo, estuda consigo, passeia consigo, dorme consigo… Mas ignora a si por medo ou preguiça do difícil. 

Enxergar-se, considerar-se, lapidar-se, ceder-se, nessa ordem, é uma gostosura!

E se a gente não está conscientemente consigo, não presta atenção em si, não se melhora. E o prejuízo é todinho da gente, afinal é a gente quem convive com a gente as vinte e quatro horas de todo dia.

A gente precisa ter coragem e, finalmente, correr para a frente do espelho, olhar para si e decretar: “A partir de agora, eu consigo!”. Ainda melhor: “A partir de agora, eu comigo!”.

Indianara Machado

Toc-toc-toc

Oi, gente!

Que saudades eu estava de escrever para o Alma Obesa! ❤

Uma insegurançazinha sobre quase tudo me pegou nesses últimos meses e fez com que eu desse uma paradinha de escrever. Na verdade, eu continuava escrevendo, mas não publicava por suspeitar das minhas “relatividades” (não escrevo verdades, diz uma amiga).

Terminada essa fase excessivamente introspectiva (espero eu!), resolvi postar um dos textos que escrevi.

Não é dos melhores (é previsivelmente introspectivo), mas vale a analogia. ;D

E agora é parte do meu planejamento 2014: atualização frequente do blog.

Obrigada pela compreensão e pelo incentivo!

Um beijo obeso! ❤

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Tem o coração.

Tenho um coração.

Dentro dele, espaços repartidos.

Como num casarão: uns cômodos grandes, em que é possível modificar o posicionamento da mobília e, quem sabe, acomodar novas, conforme a necessidade ou a vontade de mudar o aspecto do ambiente. Alguns têm o tamanho suficiente apenas para o que já está ali, embutido – sem possibilidade de mudança, restando apenas acostumar com o layout. Outros, ainda, são minúsculos, tipo cubículos, mas que comportam, bem apertadamente, tudo aquilo que eu não dispenso, que faço questão de ter no meu casarão.

E tem o porão.

Tem um porão no meu casarão.

Tenho um porão no meu coração.

Ali é quase vazio. Um pouco escuro também. Um porão.

Umas tralhas, que eu chamo de culpa e medo, estão ali, mais pertinho da janela basculante.

É que eu estou limpando o porão do meu casarão. Logo devo me livrar delas.

No meio da limpeza do porão do meu casarão eu achei uma fotografia sua, e aí resolvi trair a mim, àquela promessa antiga (não tanto quanto o meu casarão) de não escrever mais para ou sobre você, e escrevi.

Puxei um bloco de notas cor-de-rosa do bolso e rabisquei ali umas palavrinhas bobas que você gosta de ler.

Com a alma aliviada, subi as escadas do porão e adentrei a casa, com o bloco de notas cor-de-rosa novamente no bolso. E fui viver a minha vida que acontece com você do lado de fora do portão do meu casarão.

Mas às vezes, só às vezes, eu desço as escadas para o porão do meu coração e, devagarinho, pé ante pé, entro. Lá, desvio dos paranhos e sento num cantinho, fecho os olhos, para ficar ainda mais escuro, e me imagino, só por um pouquinho de tempo, encostando em você novamente. Não encostando de encostar superficialmente (Oi! Tudo bem?), mas encostando nos pedacinhos de você. Pedacinho por pedacinho. Até o pedacinho da sua alma. E abro os olhos num sobressalto, parecendo ter ouvido a campainha do casarão tocar. E é! Eu subo correndo, mas já sabendo que não é você.

Você supõe que não é bem-vindo nos cômodos superiores do meu casarão. Não arriscaria tocar a campainha e entrar no meu casarão pela porta da frente.

O meu casarão te assusta porque é grande, mesmo eu sendo pequenina.

Atendo à campainha, sirvo um café para quem chega e apresento os compartimentos do casarão. Mas o porão ainda não.

O porão ainda está meio sujo. Eu preciso terminar de limpá-lo. Eu preciso me desfazer das tralhas e da sua fotografia. Vou colocar umas lâmpadas fluorescentes, umas folhagens bonitas, um tapete felpudo e, então, posso mostrá-lo a quem chega.

Os já chegados, que são de casa, do meu casarão, perguntam: por quê você ainda não o fez?

Eu sempre tenho uma resposta pronta: ainda não tive tempo, o trabalho nos outros cômodos me consome.

Mas o que acontece (além da minha vida, sem você no porão, com você do lado de lá do portão) é que, de certa maneira, me conforta “fugir” para o porão e, entre uma varridinha e uma espanadinha, fechar os olhos, me imaginar encostando nos seus pedacinhos e rabiscar no bloco de notas cor-de-rosa as palavras bobas que você gosta de ler.

Porque apesar de toda a minha vontade de ver o porão limpo, iluminado e apresentável, eu ainda espero, às vezes (e só às vezes), pelo barulho dos seus pés esmagando a grama do quintal dos fundos do casarão, seguido pelo som das suas mãos fechadas batendo na porta do porão do meu coração. Nem que seja só para oferecer ajuda com a limpeza.

Indianara Machado

Do meio da pedra mais alta

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Me resolvi por subir na pedra mais alta

[…]

To pensando em me jogar de cima da pedra mais alta
Vou mergulhar, talvez bater cabeça no fundo
Vou dar braçadas remar todos mares do mundo

O medo fica maior de cima da pedra mais alta
Sou tão pequenininho de cima da pedra mais alta
Me pareço conchinha ou será que conchinha acha que sou eu?
Tudo fica confuso de cima da pedra mais alta

[…]

De cima da pedra não se fala em horário

[…]

Quero teu sonho visível da pedra mais alta
Quero gotas pequenas molhando a pedra mais alta
Quero a música rara o som doce choroso da flauta

Estes são trechos de uma das mais poéticas músicas de O Teatro Mágico.

Mania a minha de começar um texto por uma música. No meu trabalho, eu chamaria isso de inspiração.

Associação também serve, eu acho. Mas o que é legal é encontrar músicas, poemas e outros discursos que expressam exatamente aquilo que a gente pensa e sente, mas por algum motivo não consegue manifestar na fala ou na escrita, quem dirá no canto.

Esta música – em especial estes trechos – me toca de uma maneira intensa e, ao mesmo tempo, suave. Metaforicamente, ela diz por mim.

Por pedra mais alta eu entendo aquele sonho aparentemente impossível de se realizar, aquele desafio que faz a gente testar os limites da gente. E por limites eu entendo a tênue linha entre o certo e o errado, o verdadeiro e o falso, e as demais dicotomias que a gente vê por aqui e por aí.

Decidir estar em cima da pedra mais alta exige coragem, que na minha opinião, na de Maya Angelou e de Guimarães Rosa é a maior virtude do homem e é o que a vida espera da gente.

Quando a gente decide estar lá, sobre a pedra mais alta – leia-se na busca pela realização daquele sonho “utópico” e no enfrentamento do maior dos desafios -, a gente renuncia à zona de conforto, ao mais fácil, mais provável, mais tranquilo e mais seguro.

Escolher estar no topo da pedra mais alta faz com que a gente ponha em xeque as nossas crenças, as nossas experiências, os nossos absolutismos, tudo aquilo que a gente engoliu como verdade sem sequer pestanejar, questionar, e que a gente costuma confundir com o que é chamado de essência.

A essência não trata desses pré-conceitos, mas trata da tal coragem que faz a gente se resolver por subir na pedra mais alta.

Depois de meses sem conseguir escrever para o Alma Obesa, é o que a minha essência corajosa consegue por hoje.

O motivo deste “engessamento” é eu estar envolvida demais com a escalada da pedra mais alta, o que exige concentração na minha coragem para subir e garante que eu posso esperar estar mais próxima do topo para afirmar com certeza, como quase sempre faço aqui.

Minhas desculpas pela demora em postar ao pessoal que acompanha o blog.

Se ajudar nas desculpas, os meus motivos estão neste link: http://sigoescrevendo.com/2013/08/26/uma-vez-fui-viajar-e-nao-voltei/

E aqui está a música: http://www.youtube.com/watch?v=IwNWclslObw

Beijocas obesas!

Um beijo especial para dois amigos, um que me apresentou a música e O Teatro Mágico, e outra que me mostrou a possibilidade de subir na pedra mais alta e o link que ajuda na explicação da minha pausa. Obrigada!

Indianara Machado

Sobre a gente

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Sobre a gente

Sabe o que é?

Tem horas que a gente cansa de quiz. Cansa de querer impressionar, provar que é boa o bastante, que se encaixa em critérios pré-estabelecidos por particularidades que se montam depois de experiências vividas por e com gente que a gente nem conhece de verdade.

Cansa de, com atitudes de gente aparentemente normal – de princípios e valores – e palavras de gente aparentemente decente – de ética e moral – querer garantir ao outro que é do bem, não mata, não rouba, estuda, trabalha, ganha dinheiro suada e licitamente. Que já até cometeu uns errinhos, fez umas burradas lá atrás, desviou da conduta ou do perfil pré-traçado, do rótulo que impuseram à gente, mas ainda assim é alguém que se possa levar a sério, que se possa confiar, desfrutar da companhia, adentrar a vida.

Tem horas que cansa a gente tentar mostrar que presta.

E cansa também tentar descobrir se o outro é digno de passar pro lado de dentro da gente, de fazer parte da nossa história cheia de mancadas, mas também cheia de méritos.

E aí, quando a gente cansa de uma coisa e/ou de outra, a gente só quer estar com alguém que, independentemente de quem seja, do que faça, do que tenha, do que preza e de no que acredita, faça a gente rir.

E é libertador encontrar e ficar com alguém assim, que não quer saber quem a gente é, de onde a gente veio, quais são os defeitos e as qualidades que a gente tem, no que a gente crê… Só quer estar ali, rindo e fazendo rir, aproveitando a presença de alguém que nem sabe por quanto tempo vai estar ali. E, ah… Deixa essa lista gigantesca de pré-requisitos pra lá e vem pra cá, o que é que há?

Acho que nessas horas, de cansaço e leveza simultâneos, a gente é a gente e fica feliz por ser quem é. 

Quem quer que se seja, com quem quer que se esteja.

Quem quer que se esteja, com quem quer que seja.

 

Indianara Machado